A inteligência artificial no mercado imobiliário deixou de ser experimento de poucos e virou regra: 56,5% das empresas do setor ouvidas em levantamento divulgado no Morada Summit 2026 já usam IA de alguma forma. O dado marca uma virada. A tecnologia passou da margem para o centro da operação das incorporadoras e começa a redesenhar onde o setor vai investir nos próximos anos.
A pesquisa que colocou a IA como maioria no setor
O estudo foi conduzido pela Morada.ai em parceria com a BCB Inteligência e a agência Upload, e apresentado no Morada Summit 2026, em São Paulo, evento que reuniu cerca de 300 executivos e especialistas. A amostra é dominada por incorporadoras (52,7% dos respondentes), com forte presença de empresas de porte médio, entre 51 e 200 funcionários, e concentração em São Paulo. É desse retrato que sai o número que dá o tom: a maioria já cruzou a linha da adoção.
Mais do que o tamanho da adoção, chama atenção a maturidade ainda recente. Boa parte das empresas que usam IA está nessa jornada há pouco tempo: 41,7% trabalham com a tecnologia entre um e três anos. E a porta de entrada quase sempre é a ferramenta de prateleira. São 67,9% recorrendo a soluções de terceiros, contra apenas 15,4% que desenvolveram algo próprio. Em outras palavras, o setor adotou IA, mas em larga medida ainda usa o que está disponível para qualquer empresa, não ferramentas pensadas para a lógica do imóvel.
Onde a inteligência artificial entra primeiro no mercado imobiliário
Entre as empresas que ainda não usam IA, o interesse se distribui de forma equilibrada por três frentes, todas ligadas ao núcleo do negócio. A análise de crédito lidera, com 21,1%, seguida de perto por projetos e engenharia (20%) e por marketing comercial (18,4%). A proximidade entre os percentuais diz algo: não há uma aplicação óbvia e isolada, e sim várias dores concretas que a IA promete endereçar ao longo da cadeia.
Que a análise de crédito apareça no topo faz sentido. É uma tarefa intensiva em dados, repetitiva e com impacto direto no caixa, exatamente o tipo de processo em que modelos conseguem ganhar velocidade sem perder critério. Na prática, IA na análise de crédito significa usar modelos para ler documentos, cruzar informações e estimar o risco de inadimplência em minutos, acelerando uma etapa que costumava levar dias. Num momento em que o crédito imobiliário deve crescer em 2026, automatizar a triagem de risco vira vantagem competitiva, desde que o modelo seja auditável e respeite as regras de proteção de dados. É também a engrenagem que pesa na ponta das taxas do financiamento imobiliário em 2026, porque crédito mais rápido e mais preciso encurta o caminho entre a proposta e a assinatura.
Investimento em IA deve crescer em 2026
O apetite não dá sinais de recuo. Entre as empresas que já investem em inteligência artificial, 37,1% pretendem ampliar os aportes em 2026 e outras 35,8% planejam manter o nível atual. Somadas, quase três em cada quatro seguem apostando na tecnologia, um indicativo de que o setor passou da fase de teste para a de escala e não trata a IA como modismo passageiro. O movimento conversa com o vocabulário da proptech, a onda de tecnologia aplicada ao mercado imobiliário que vinha restrita a startups e agora chega ao orçamento das grandes incorporadoras.
O que ainda trava a adoção, e os riscos a observar
Se a maioria já entrou, a outra metade hesita por motivos concretos. O principal obstáculo apontado é a dúvida sobre o retorno do investimento (23,8%), seguido pela falta de equipe preparada (19,5%). São barreiras clássicas de qualquer tecnologia nova: sem clareza sobre o ganho e sem gente para operar, o projeto não sai do papel.
Há ainda um eixo que tende a pesar mais à medida que o uso se espalha, a governança. A IA aplicada à análise de crédito ou à precificação mexe com dados pessoais e com decisões que afetam o bolso do cliente, terreno sensível sob a Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD) e sob a régua regulatória que está sendo desenhada. O Marco Legal da Inteligência Artificial (o PL 2338/2023, aprovado pelo Senado) tramita na Câmara dos Deputados e classifica os sistemas por nível de risco, com exigências de transparência e previsão de sanções para os usos mais sensíveis. Para o setor imobiliário, a mensagem é direta: adotar IA não basta, será preciso provar que ela é explicável e auditável.
Perguntas frequentes
Quantas empresas do mercado imobiliário já usam inteligência artificial?
Segundo a pesquisa apresentada no Morada Summit 2026, 56,5% das empresas do setor ouvidas já adotaram IA de alguma forma. A amostra é dominada por incorporadoras, o que reforça a leitura de que a tecnologia já é maioria nesse segmento.
Em quais áreas a IA mais desperta interesse no setor imobiliário?
Entre as empresas que ainda não usam, as frentes de maior interesse são análise de crédito (21,1%), projetos e engenharia (20%) e marketing comercial (18,4%), três aplicações ligadas diretamente ao núcleo do negócio.
A inteligência artificial no mercado imobiliário já tem regulação no Brasil?
Ainda não em vigor. O Marco Legal da IA (PL 2338/2023) foi aprovado pelo Senado e tramita na Câmara dos Deputados. Quando virar lei, deve impor regras de transparência e governança aos usos de maior risco, como a análise de crédito automatizada.
O retrato de 2026 é o de um setor que já decidiu: a inteligência artificial deixou de ser diferencial de vanguarda para virar infraestrutura competitiva. O próximo capítulo não se resolve mais no “se”, e sim no “como”, a passagem das ferramentas genéricas para aplicações que entendem a lógica do imóvel, com dado limpo e governança capaz de sustentar a régua regulatória que se aproxima. Quem tratar IA como projeto sério, e não como vitrine, tende a abrir distância justamente nas frentes que a pesquisa aponta como prioridade.
